Texto da palestra realizada no Instituto Goethe de São Paulo em 2011, sobre o romance As almas que
se quebram no chão, de Karleno Bocarro.
Antes, gostaria de observar que a minha leitura do romance As almas que se quebram no chão, de Karleno Bocarro (É Realizações, 2010), se deu paralelamente à de duas outras bem sucedidas realizações literárias: a peça Os amadores, de Pedro Sette-Câmara, disponível no site do autor http://www.pedrosette.com/, e Consagro-vos a minha língua, romance de José Carlos Zamboni, também lançado recentemente.
Por que cito essas
três obras? Elas têm em comum o fato de suas personagens procurarem triunfar
sobre as pessoas e sobre a realidade com a literatura, com o modo de dizer de
grandes personagens literárias, ou com alguma pose que cause forte impressão.
Mais precisamente são personagens mais ou menos cultas ou com uma simples
educação formal ou ainda que ouviram falar do mundo da cultura e resolveram
usar seus elementos mais aparentes para fazer a “diferença”, para criar um
território, para mostrar aos outros o quanto são autênticas, o quanto têm uma
identidade, o quanto têm uma personalidade forte ou enigmática. Porém, todos os
seus sonhos desmedidos, sem o auxílio de um esforço que pudesse concretizá-los,
foram reduzidos ao que Manuel Bandeira chamou de “uma vida inteira que podia
ter sido e que não foi.” Padecem, desse modo, de uma ordem da invisibilidade
que contraria as expectativas que criaram para si mesmos. Dito isso, chama
atenção que essas obras orbitem em torno de outro grande romance: Memórias
do subsolo, de Dostoiévski. Cada uma dessas obras seria algo como um
prolongamento das grandes discussões propostas por esse grande romance.
O narrador do
romance de Dostoiévski é alguém obcecado pelo “belo e o sublime” e que em
vários momentos julgou que poderia vencer as adversidades do mundo pelo simples
fato de conhecer as sutilezas do seu objeto de obsessão, porém todas as vezes
em que ele queria mostrar ser alguém de valor, alguém cuja ausência faria
chover lágrimas no mundo, por fim todas as vezes em que buscava o triunfo sobre
o outro, acontecia de este outro não tomar conhecimento dele para que tal
triunfo acontecesse, vivendo assim numa constrangedora invisibilidade. É o que
podemos perceber na passagem sobre um incidente na taverna, em que ele, um
sujeito pequeno, é erguido por um oficial e assim retirado do caminho, tal como
alguém, que com a maior indiferença, retira uma cadeira da sua passagem para
continuar seguindo em frente.
Indignado, vai para
casa com raiva, rumina a humilhação por muito tempo, e dois anos depois escreve
uma carta cheia de veleidades literárias em que desafia o desafeto para um
duelo, a qual não envia por conta do óbvio anacronismo; ou ainda, quando
procura uma ocasião para dar uma lição de moral a seus colegas de repartição, a
partir de tudo que teria aprendido com os textos filosóficos e literários.
Humilha-se para ser convidado por esses colegas para participar de um jantar,
durante o qual teria a oportunidade de jogar-lhes na cara tudo que queria dizer
a respeito deles, seria o momento da desforra. Porém, chegando lá, ora faz de
tudo para provocá-los, chamar-lhes atenção, ora afeta desprezá-los, mas mal
tomam conhecimento de sua presença – a não ser eventualmente para fazer troça
de sua pronúncia – e continuam com a sua festinha particular. Mais uma vez,
volta humilhado para casa, e acaba sobrando para a única pessoa que lhe dava
atenção: uma prostituta que, num gesto de caridade, o visita, e contra a qual
fez o tão sonhado discurso e com a eloqüência que deveria ser antes dirigida
aos seus colegas de repartição, e jogando-lhe na cara toda a condição precária
em que ela vivia e, enfim, pondo violentamente em sua mão uma quantia em
dinheiro, que ela, antes de ir embora, deixa em cima de um móvel. Nunca mais
ouve falar dela.
A peça Os
amadores, de Pedro Sette-Câmara, prolonga a discussão a respeito da obsessão
pelo “belo e o sublime” sob a espécie de uma engenhosa comédia romântica para
adolescentes, por meio de diálogos jocosos e que conta histórias de amor bem ou
mal sucedidas e cuja personagem principal, Valter, vive a se queixar porque o
homem não consegue determinar seu destino, em suas palavras: “nada pior do que
depender de alguém que não é você”, e para arrematar lamenta-se dizendo:
Eu mesmo
sempre fiquei chocado com uma coisa: quando alguém importante morre, as
montanhas continuam no lugar, o céu continua ali, e nem os prédios têm a
decência de desabar, o que aliás seria o mínimo. Nós nem mesmo celebramos mais
o sublime, não valorizamos o amor que vai além da morte e que, ele sim, pode
definir quem é alguém.
Valter é alguém de
mentalidade romântica, mas que dos românticos herdou apenas o sentimento e suas
fraquezas. Só que a diferença, neste caso, é trágica: os românticos, ao
contrário dele, ao menos se realizaram artisticamente com seus devaneios, ao
passo que ele se tornou alvo de comentários mordazes, como este a seguir, entre
sua ex-namorada e sua amiga:
CARLOTA: Assim não
dá, não é? E ele faz promessas. Outro dia falou que ia passar a eternidade
fazendo poemas pra mim. E eu vou fazer o quê? Ficar ouvindo poesia a eternidade
toda?
LEONORA: Realmente.
Só com poesia não dá, não é? E esse negócio de ir a Paris assim do nada? Parece
que ele nunca fincou o pé no chão.
CARLOTA: Só fala do
que não dá para fazer.
LEONORA: (Pegando
no braço de Carlota.) Ele devia andar de túnica e harpa na mão.
CARLOTA: Em vez de
andar de carro, ele devia andar de nuvem!
Já o romance Consagro-vos
a minha língua, de José Carlos Zamboni, tem como personagem principal
Hildo Rielli, funcionário de um banco, graduado em letras, aborrecido com seu
emprego – e ao mesmo tempo temeroso de ser demitido por conta da privatização
–, que julga indigno para alguém de sua estatura, para alguém de sua cultura e
sensibilidade, para alguém que tem ambições literárias, assim como é indigna
toda sua vida: um homem triste e destruído por não ver concretizadas as
expectativas que outros tiveram dele ou ele de si mesmo. Curiosamente, um homem
capaz de perceber as coisas como são e de dizer as coisas certas, mas ao qual
falta consistência moral e que vive sob uma chantagem que envolve uma história
nada edificante, a de um ato de pedofilia envolvendo a filha de sua amante, e
que muito se relaciona com a seguinte reflexão da personagem de Dostoiévski:
... por que
me acontecia não apenas conceber, mas realizar atos tão feios, atos que... bem,
numa palavra, atos como os que todos talvez cometam, mas que, como se fosse de
propósito, me ocorriam justamente nos momentos em que eu mais nitidamente
percebia que de modo algum deveria cometê-los? (Editora 34, p.19)
Além disso, padece
de um problema físico que parece refletir a sua vida, que é a gradativa
diminuição da voz:
A
conseqüência é que me tornava lacônico e, nos melhores momentos, conciso,
quando na verdade era um sujeito fragmentário, pela metade, impedido ou
envergonhado de exibir-me como era ou pelo menos como julgava que fosse.
Sujeitos
fragmentários e pela metade são também os que habitam As almas que se
quebram no chão. A história é ambientada na Alemanha Oriental, a partir
dos poucos meses que antecedem a queda do muro, e se prolonga por mais alguns
anos, após os quais o protagonista volta ao Brasil e assim confere uma cor
nacional aos seus desastres pessoais. E vemos nessa narrativa os efeitos dessa
queda em diferentes tipos de personagens.
No livro de
Karleno, a crença nas utopias foi em geral substituída por um ritmo de
vida desenfreado, pelo intenso uso de drogas, pelo hedonismo que beira o
desespero, e o inimigo que era o império norte-americano passou a ser a AIDS, à
qual o conhecido Cazuza chamou de “complô contra a sacanagem”. O protagonista é
Marco Dilthey, funcionário do Banco do Brasil, como Hildo Rielli, e que cansado
de viver numa espécie de invisibilidade, vê na oportunidade de estudar na
Alemanha o fim de uma vida sem maiores significados e o início de uma
consagração pessoal e literária que apenas a Europa poderia oferecer.
Consegue, então,
uma bolsa pelo partidão para estudar em Berlim, e vislumbra a possibilidade de ampliar
seus horizontes, encontrar elementos que o tornem um grande escritor e, por que
não, conhecer as mulheres alemãs, certamente mais interessantes que a sua
namorada brasileira Luiza, a qual diga-se de passagem, é certamente a
personalidade estável e forte do romance e que não se deixa atingir pelas vozes
dos novos tempos tão bem representadas por Marco. Porém, chegando lá, e não
percebendo sinais positivos com relação às suas pretensões literárias -- tão
intensas no desejo de serem atingidas, mas muito vagas no que se refere ao
esforço necessário para atingi-las --, e muito menos conseguindo êxito nos
estudos, todas as suas ambições foram reduzidas a conseguir mulheres alemãs,
depois qualquer tipo de mulher e por fim alguma idéia de mulher.
Além dele, seu
antípoda, Barad, também brasileiro, mas diferentemente dele, mais bem integrado
ao país, tem uma namorada alemã, disciplinado, dedicado aos estudos -- e,
diga-se, tão dedicado a eles que suas pretensões literárias, ainda que sem o
sacrifício delas, poderiam esperar mais um pouco se a questão era cumprir todas
as etapas acadêmicas. Por outro lado, uma figura com uma visão estética da vida
e para a qual o bem e o mal são destituídos de qualquer hierarquia moral e
as pessoas à sua volta, na melhor das hipóteses, são alvos de um interesse
frio, uma vez que não são mais que possíveis personagens.
Por meio de Barad,
Marco é apresentado a Dias, um exilado do regime militar brasileiro, mas que se
recusa a voltar para o Brasil, porque acredita que os agentes da repressão ainda estão na
sua cola, por conta de uma curiosa adaptação que fizera do Manifesto Comunista
para os operários do ABC. Além disso, vive uma vida pessoal um tanto atribulada
e sonha com o grande dia em que seus contos serão traduzidos para o alemão e
conseguir, desse modo, o tão desejado reconhecimento. Enquanto isso, continua
levando sua vida como eterno estudante e faz bicos como pedreiro. Indo à casa
de Dias para conhecer-lhe os contos, numa situação nada edificante para o
ex-exilado, Marco trava conhecimento com Bocas, uma personagem hedonista e
mefistofélica, capaz de transformar os que estão à sua volta em capachos e ainda
fazê-los agradecer por isso. É também uma figura demiúrgica capaz de perceber
boas oportunidades financeiras em países comunistas em fase de transição e de
usar despudoradamente a curiosidade que o europeu tem com relação ao exotismo
latino-americano. E entre várias outras personagens que habitam o livro, por
fim, temos Grubas, que é um grande contador de histórias, uma personagem que dá
à luz vários episódios impactantes, muitos dos quais giram em torno de relações
mal-sucedidas, e que têm algo de parábolas invertidas.
Quero, porém me
concentrar em duas personagens que são uma variação do “homem do subsolo”:
Marco e Dias. Ambos querem marcar, são personagens, como já foi dito, com
alguma educação formal ou, se não são cultas, que ao menos absorveram o sotaque
acadêmico-intelectual da época, além de terem sido explorados
desavergonhadamente por Bocas. Vemos, então, um jovem hedonista mal sucedido e
um engajado de meia idade, que ainda age como se o regime militar, de alguma
forma, estivesse na ativa, como se o regime militar não cessasse sua existência
enquanto o não prendesse, o torturasse, o matasse e apagasse da memória da
nação brasileira o seu Manifesto Comunista para os operários do ABC. Marco, por
sinal, passa por uma situação análoga: toda vez que não consegue cumprir com
alguma tarefa acadêmica ou não é notado pela mulher alemã ou é por ela
rejeitado ou agredido fisicamente por um grupo de lésbicas em fúria ou ainda
posto para fora sob tapas e pontapés de uma casa de espetáculos eróticos, é o
império europeu, com sua insensibilidade aos problemas do terceiro-mundo, que o
persegue. Ou seja, ambos tendem a desviar a discussão sobre a verdadeira razão
de seus fracassos pessoais e exagerar o poder de seus perseguidores. Mais
precisamente, criam perseguidores poderosos para conferir estatuto de
heroísmo à não conclusão de seus projetos pessoais. E sempre saem
derrotados diante das adversidades porque acreditam que seus pretensos inimigos
serão tocados pelo impacto de seus discursos com veleidades filosófico-literárias
ou clichês políticos. É o que vemos neste diálogo em que Marco, após ter
fracassado na tentativa de explicar a uma austríaca o que era sincretismo,
tenta impressioná-la falando da política internacional:
E se danou a
falar da exploração dos africanos, do egoísmo dos europeus: por que não dão
mais dinheiro àqueles coitados, depois de explorá-los e dividi-los como a uns
doidos?
-- A culpa é deles
– ela respondeu com toda clareza.
-- Como deles? A
Áustria está livre disso, eu sei. Mas todas as outras potências européias – e
emendou em português – deitaram e rolaram por lá.
Ao perceber o erro,
e por não saber como dizer em alemão “deitaram e rolaram por lá”, usou o verbo ausbeuten,
explorar. Ela lhe devolveu:
-- E agora que não
são mais explorados, por que não se ajeitam?
-- Não deixam.
-- Quem? Se
escolhem presidentes corruptos, ditadores, canibais… Que se danem. Fazem a
opção pela merda, Scheisse!
(...)
-- E a África do
Sul, Mandela, apartheid? – ele revidou.
-- Não justifico o apartheid,
é um tema maldito. Mas se não fossem os ingleses e holandeses estariam bem
pior.
-- Ah, quer bem me
dizer que vocês representam a civilização?
-- Vocês quem? Já
que tocou no assunto, confirmo: Quanto mais se mirarem em nosso modus
vivendi…
-- Modo de quê?
-- Mas não, querem
é vir para cá viver às nossas custas.
-- Quem disse isso,
você?
-- Terminei de
falar.
-- E as crianças
que morrem aos milhares de fome?
-- ... que usem o
aborto e a ligação de trompas (...) falo sério. Pois se aumentam como ratos,
que culpa temos? E os governantes mais corruptos...
-- Se cada europeu
adotasse uma criança – apregoou Marco. – Mas preferem os cães às crianças.
Aposto como você tem um…
-- Um pastor
alemão, e não o troco por nada neste mundo.
(...)
-- É egoísmo puro,
colocar um cachorro acima de uma criança.
-- Quatsch!
Cachorros não provocam desequilíbrio ecológico no planeta. Tem muita gente na
Terra, e a África é a maior parideira. Agora, por que você não vai lá e aplica
suas palavras?
-- Se eu pudesse eu
iria – apelou Marco.
-- Que nada! Quem
fala não faz.
-- Iria mesmo, quer
saber?
-- Ao coração das
trevas? Duvido.
-- Como assim?
-- São
supersticiosos, e vocês, brasileiros, seguem atrás. Acreditam em demônios,
espíritos ruins, em bruxaria. Os homens estupram meninas como cura da AIDS…
-- Você, ó! – e
Marco passou dois dedos diante dos olhos – Louca.
-- E você? Como
todos lá de baixo, um idiota que detesta a sinceridade, o toque na verdade, na
ferida, não é? Vive bem de ilusões, pois não se esforça para sair delas. Quer
dizer, d.h., um besta dum hipócrita preguiçoso.
-- ... sua nazi de
uma figa. – pegou o reco-reco, aproximou-o do rosto dela, passou a ponta de
ferro pelas molas, arrancando uma estridência incômoda, e se afastou, ainda
olhou para trás.
Por fim, como
podemos perceber por esse diálogo, Marco não apenas não compreende que lhe
faltam as virtudes dos seus heróis como acaba falhando de forma humilhante,
porque é mais interessado em impressionar que ser verdadeiro. A austríaca, não
se pode negar, também dizia seus clichês, mas eram clichês que estavam em pleno
acordo com sua visão de mundo, de modo que clichê ou não clichê era sincera e,
por isso, desembaraçada. Também são desembaraçados Bocas e, até certo ponto,
Barad, além do contador de histórias Grubas, e outras personagens bizarras que,
se por um lado são símbolos de uma vida desperdiçada, por outro lado, no tempo
que lhes resta, não perdem tempo fazendo pose. Simplesmente agem e vivem, ainda
que seja no erro. Marco, assim como Dias, porém, é a representação de um esteta
romântico esfarrapado, que não conseguiu para si o pathos dos
revolucionários que têm sede de justiça nem o ar enigmático dos vilões.